A dialética da ilusão

Brasília é o reflexo de um Brasil que ainda vai demorar muito a ser o país que queremos. A capital das desigualdades - sim, porque não sei qual outro adjetivo posso dar a ela - é o paradoxo mais brutal da hipocrisia política, típica da política brasileira.


Apimentada com monumentos estapafúrdios e repleta de gente que pensa ser superior, Brasília se mostra como o microcosmo do Brasil capitalista, que para alguns revela sua grandeza e para tantos, apenas suas mazelas. Ela representa um Brasil que se modernizou e se industrializou, mas esqueceu do mais importante, construir uma nação para todos.


O Congresso Nacional, a “casa do povo”, não é bem a casa do povo e ouso dizer que também não é bem um “congresso” nacional. Tá mais para... Bom, melhor não continuar.


A monumental Brasília esconde em seus guetos os pobres e miseráveis. Ah, sim, muitos destes, hoje já nem se entendem como tal. São apenas nômades. Para eles, a desigualdade já assumiu um papel central e massificou de tal forma o sujeito que esta condição na sua mente passou a ser imutável e intransponível. Infelizmente, esta brutal realidade não é privilégio da capital federal, se tornou regra nacional. E há muito tempo, aliás.


Enquanto vários seminários e conferências discutem os direitos humanos e tantos outros dieiros, hospedando seus delegados nos melhores hotéis da cidade, na praça da torre de TV o direito ao trabalho é negado aos feirantes que ali se encontram a quase 30 anos. Enquanto “expositores institucionais” – ou seja, a mídia intelectual representada por algumas revistas e livros de pensadores avançados – são convidados a participar de tais encontros dos “expoentes do movimento social nacional”, o artista de rua e o expositor popular é impedido de chegar perto do centro de convenções. Nada contra as revistas e editoras que expõem, é bom salientar isso. O que indigna é que o povão fica alheio aos aconteciementos, mesmo vivendo ao lado deles e convivendo dia-a-dia com os problemas, respirando-os e sentindo-os na pele.
Enquanto o senado e a câmara discutem, ou melhor, negociam o orçamento da união de forma prostituída que, aliás, é a maior característica destas casas, na praça dos três poderes, diante do palácio do Congresso, do palácio do Planalto e em frente a totalmente cega justiça brasileira, empilham-se os mendigos e indigentes. Obviamente, cobertos ou escondidos sobre os guetos dos monumentos, uma vez que esta população também tem sido exterminada numa espécie de higienização social. Sim, porque na concepção dos seres superiores do Brasil, ser pobre é uma condição imutável e que por si só é justificativa para sentenciar o sujeito a exclusão da cidadania e nesta lógica nazista, porque não à morte?
A Brasília dos palácios e embaixadas, de ares democráticos e modernos esconde outra face obscura, a face do preconceito mascarado em diversos talhes. Se fosse no carnaval de Veneza, não conseguiria tantas facetas. 

A “cidade branca”, e pode ser assim chamada assim por diversos fatores, tem fobia a tudo. Já falamos do pobre. Mas ela tem paradoxal fobia aos trabalhadores que a constroem. Nos espaços brasilienses, pensados para comportar gente, as paredes parecem avessas ao povo, parecem ter fobia à organização popular e isso deve ser uma daquelas heranças da ditadura, que dão a Brasília o ar esnobe que tem.


Mas sabe, é possível dar novos ares a capital. É possível dar novos ares ao Brasil. É preciso começar cuidando do nosso povo, garantindo um mínimo de igualdade. Faz necessário que a propalada cidadania saia do papel e se torne realidade, para que se possa romper com esta patética retórica excludente que circunda a república e assim que possamos realmente ser todos brasileiros.